Vilmar Rangel

CULTURA & MEMÓRIA: VALORES INTRÍNSECOS NO CONCEITO DE DESENVOLVIMENTO

 Vilmar Rangel*

É princípio consagrado na cultura e nos costumes que um povo só pode ter a dimensão do futuro se conhecer e souber preservar a sua história. Um povo que não cultua o seu passado, para perceber e interpretar o presente, está fadado a viver à margem da sociedade, descartando a oportunidade de elevar sua autoestima e orgulhar-se de sua terra. Não basta preservar festas ditas populares, não raro “atualizadas” por novas indumentárias ou repertórios musicais, em simples cópias do que a máquina televisiva repete e distorce. O de que precisamos é algo mais profundo, respeitador de legítimas raízes, que fortaleça sua fidelidade às origens e se mostre  comprometido com o princípio da identidade e da autoestima do povo.

Ao lado de atividades caracterizadas como propulsoras do chamado desenvolvimento econômico, uma coletividade que pretenda evoluir em todas as direções e dimensões, sintonizando-se com a dinâmica civilizatória, deveria inserir entre suas prioridades o apoio à cultura e à preservação de sua memória.

Paralelamente às artes e à literatura, a história de um povo também se escreve através do conhecimento dos feitos de grandes vultos que protagonizaram momentos importantes e decisivos da história local. Somente assim uma sociedade, em todos os seus extratos e níveis, conseguirá cultuar respeito e render homenagem àqueles e àquelas que nos legaram grandes exemplos de trabalho, bravura, espírito de iniciativa, representativos de dedicação e amor à terra natal ou adotiva. Sem referências históricas, pedagogicamente cristalizadas no testemunho e na memória, um povo acaba mantido na ignorância de fatos que marcaram a vida da coletividade, perdendo a oportunidade de incorporar à sua natureza e ao seu jeito de ser uma identidade própria, capaz de se manter forte e progressista.

Durante muitos anos os gestores públicos do município campista pouco fizeram no sentido de recuperar, conservar e proteger nossos monumentos, bustos, hermas e marcos, que registram importantes fatos de nossa história, ao longo dos últimos quatro séculos. Esquecidos e fora da pauta das prioridades, esses valiosos exemplares, parte indissociável de nossa paisagem (na área urbana e no interior), foram relegados ao abandono, sendo não raro vítimas de vandalismos e desrespeitos de toda a ordem. Sequer foram integrados ao currículo escolar, como informação histórica indispensável à formação da cidadania das futuras gerações.

Estas considerações são oportunizadas por indícios animadores de que, embora na reta final de um mandato, a administração municipal demonstra disposição de materializar propostas de campanha em sincera  vontade política. Falamos de ações que, preconizadas pela Secretaria de Cultura, em cooperação com outros órgãos do poder executivo e instituições da sociedade civil, vão finalmente resgatar e valorizar esses magníficos exemplares que retratam feitos, fatos e personagens fundamentais da história campista. O primeiro deles foi o monumento em homenagem aos expedicionários, na Praça São Salvador. A seguir, virão por certo um novo layout para a cena escultórica que exalta José do Patrocínio, a recuperação das legendas do obelisco da Beira Rio, a restauração do chafariz belga da Praça das 4 Jornadas.  e tantos outras obras merecedoras de tratamento digno. A essas medidas serão agregados museus temáticos.

O justo elogio que se faz é acompanhado de um apelo: que o projeto não sofra descontinuidade, mal que sempre estigmatizou tantas iniciativas na esfera governamental. E mais: que as restaurações sejam enriquecidas com identificação visível e informações didáticas, de modo que os objetivos de sua primitiva criação sejam alcançados integralmente: despertar, incentivar e consolidar a genuína identidade do povo campista, fator inerente ao conceito amplo de desenvolvimento.

 

*Profissional de comunicação; membro das Academias Pedralva e Campista de Letras

 

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